Pouco
mais de três meses após a adoção do Cartão BOM (Bilhete de Ônibus
Metropolitano) nos trólebus do Corredor ABD, ambulantes que revendem
bilhetes da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e EMTU
(Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) no Centro de Santo André
já oferecem esquema de compra dos créditos eletrônicos do
vale-transporte.
É
a forma encontrada de compensar a queda na comercialização dos passes
magnéticos após a adoção do cartão. A equipe do Diário esteve em todas
as estações de trem e terminais de trólebus da região. Em São Caetano,
Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra não havia vendedores. No restante, o
número de ambulantes desse tipo de negócio é baixo.
Pagando
só metade do valor que o trabalhador ou estudante ganha de cota no
cartão, os ambulantes atraem os clientes com quiosques montados ao redor
do Terminal Oeste de Santo André. Lá, as pessoas são orientadas a
seguir para uma sala comercial na Rua Catequese. É necessário deixar o
cartão e fornecer dados como nome completo e CPF para que os
revendedores possam ativar um cadastro no site do Cartão BOM e, dessa
forma, acompanhar o saldo de créditos.
"Se
quiser vender só de um mês, você volta aqui depois de 30 dias e pega o
cartão. Senão, volta mensalmente para retirar os 50% de dinheiro a que
tem direito", explicou um dos atendentes. A pessoa interessada paga até
R$ 2,90, R$ 0,10 a menos que o preço da passagem, para usar o cartão
alheio.
Uma
lei trabalhista de 1985 proíbe o trabalhador de revender o
vale-transporte. O desrespeito pode render demissão por justa causa.
Quem revende é passível de autuação criminal. E o usuário que adquire
também pode responder por falsidade ideológica. A Polícia Civil da
região não tem registros de ocorrência do tipo. Mas a fiscalização da
abordagem inicial, das barracas na rua, é de responsabilidade do poder
municipal. A Prefeitura de Santo André disse estar ciente do problema e
que intensificou a atuação de fiscais nos terminais.
Por
sua vez, a EMTU informou que vem adotando medidas para coibir o uso
irregular do cartão. Uma delas é o limite de dez viagens por dia. Outra é
o tempo de 60 minutos de espera para passar novamente com o cartão na
mesma catraca.
A
empresa disse ainda que faz acompanhamento do uso de cartões de
vale-transporte e que constatação de fraude, como o uso repetido do
direito em um mesmo coletivo, pode acarretar em redução da quantidade de
utilização e perda do direito de recarga diretamente na catraca,
obrigando o usuário a ir em uma loja do BOM.
"Sei que é proibido, mas preciso do dinheiro. Como minha irmã não usa o cartão, achei por bem vender", disse um dos clientes da sala comercial que compra os créditos, que passava ali para retirar a cota mensal a que tem direito - R$ 75 -, referente às 50 passagens mensais que a irmã recebe no emprego.
"Sei que é proibido, mas preciso do dinheiro. Como minha irmã não usa o cartão, achei por bem vender", disse um dos clientes da sala comercial que compra os créditos, que passava ali para retirar a cota mensal a que tem direito - R$ 75 -, referente às 50 passagens mensais que a irmã recebe no emprego.
Apesar
de não revelar quantos mais topam deixar documentos na mão do grupo, o
atendente disse que o esquema é novo e que ainda tem pequena cartela de
clientes. "Por isso estamos pensando em até mesmo abaixar o preço para
atrair mais pessoas. Todo mundo sai ganhando." (Colaboraram Cadu Proieti
e Fábio Munhoz)
Fiscalização das prefeituras é falha e favorece comércio
As
prefeituras dizem que fazem constantes fiscalizações para coibir o
comércio ilegal ao lado de estações ou terminais. Mas é falha. Em todas
há ambulantes, só que em Santo André a ousadia é maior. Principal
estação de trem da Linha 10-Turquesa no Grande ABC, com a maioria dos
5,1 milhões de passagens em fevereiro, também é o ponto preferido de
atuação dos ambulantes.
A
procura é tanta por parte dos passageiros que não há necessidade sequer
de diminuir os R$ 3 cobrados na bilheteria oficial. "Todo mundo prefere
comprar bilhete aqui fora para fugir da fila. Não tenho tempo para
ficar esperando", disse o vendedor Rafael Santos, 28 anos, que mora na
Capital e trabalha em São Bernardo. Como ganha o vale-transporte apenas
no Cartão BOM, não aceito no trem, todo dia ele paga um ambulante para
escapar das filas, às 19h, e assim chegar em casa mais cedo.
"Nunca
tive problema com bilhete falso. O pessoal sempre alerta para esse
risco, mas a gente sabe exatamente de onde é a procedência: de
trabalhador, como eu", completou.
Tamanha
concorrência fez o vendedor de chicletes Maurício Costa, 39, desistir
de vender bilhetes. Com um ponto fixo na frente da estação da CPTM,
tinha lucro certo até o número de colegas aumentar. Com a adoção dos
cartões Bom e Bilhete Único, da Capital, viu o movimento cair e disse
estar arrependido.
"Não
defendo a venda do passe. O transporte público só melhorou desde então,
foi uma troca justa. O passe me ajudou em um momento difícil. Hoje, a
bala consegue sustentar minha família."
Mercado paralelo de bilhetes tem queda
Cerca
de 2,6 milhões de cartões BOM estão ativos. Desses, 50% são usados
diariamente nas catracas da EMTU, incluindo o Corredor ABD de trólebus. O
próximo passo, apesar de a CPTM não divulgar prazos, é a aceitação
dessa forma de pagamento nas catracas do sistema ferroviário. No
momento, é aceito apenas na Estação Palmeiras/Barra Funda, na Capital.
Pelo
constante crescimento de usuários do BOM, o mercado paralelo de
bilhetes magnéticos caiu consideravelmente. Mas não acabou. Nas três
cidades em que o Diário não constatou a presença de revendedores,
populares informaram que eles viraram figura rara. "Às vezes, você está
no ponto ou no ônibus e o próprio trabalhador que quer repassar seu
vale-transporte vem oferecer alguns bilhetes", disse passageira de São
Caetano.
"Acabou.
Hoje só tenho prejuízo", disse o ambulante Sebastião Torres, 63 anos,
há 12 com uma barraca na região central de São Bernardo. "Hoje, se
recebemos dez passes em um mês, é muito. E mesmo assim só vendo dois,
três por semana", completou.
Ele
explicou que a vantagem sempre foi pequena para os ambulantes.
Trabalhadores que ganhavam cota de bilhetes eletrônicos acima do que
precisam encontravam meio de lucrar. Cada passe era vendido por R$ 2. E
revendido por R$ 2,80, R$ 0,10 a menos do preço da passagem na época.
"Tinha
dia que você não ganhava nada. Mas o máximo que lucrava eram R$ 50,
para encerrar o trabalho e ir ali no bar tomar um negocinho", brincou.
Ciente de que o que fazia era errado, disse que nunca foi incomodado por
fiscal da Prefeitura. "Nem paguei nada para eles."
Benedita
Silva, 58, 11 deles como ambulante em Diadema, olha para a barraca de
carteiras e carregadores de celular e suspira. "Muita gente perdeu o
emprego. Meu filho, por exemplo. O passe acabou", disse. Com número fixo
de clientes mensais - venda e compra -, já lucrou R$ 700 em um mês só
com a revenda de bilhetes. "Agora, a maioria teve de voltar a vender
doce ou bala. Os cartões acabaram com a mamata."

0 comentários:
Postar um comentário